A eleição que mudou alguns mapas – coluna do Gutierrez

De Mosquini a Ninho e Cláudia de Jesus, a eleição de Rondônia revela crescimento, expansão de bases e novas forças políticas.

Fez tudo na medida certa

O que explica a votação histórica de Lúcio Mosquini, que superou os 150 mil votos e se tornou o deputado federal mais votado da história de Rondônia?

O primeiro passo foi sair do MDB e ingressar no PL. Com isso, ele estava credenciado para agir dentro de um ambiente eleitoral altamente alinhado a esse pensamento político. Depois veio a escolha das pautas políticas de luta.

Todos os temas que Mosquini defendeu foram ao encontro do pensamento da direita urbana e rural e, principalmente, da aguerrida extrema-direita de Rondônia. Não bastava apenas a escolha certa das pautas. Ele foi muito eficiente em dizer o que estava fazendo, ao se colocar como defensor das questões políticas ambientais, fundiárias, contra o uso de tecnologia para a punição remota de queimadas e desmatamentos e até mesmo em relação à energia solar.

A estratégia foi tão eficiente que conseguiu, em muitos momentos, viralizar. Mosquini conseguiu, de forma simples, conversar com todas as variantes da direita rondoniense. O resultado é que deixou de ser apenas um nome da política com base em Jaru para se tornar sinônimo de defesa do segmento produtivo de Rondônia.

 

Se estivesse no PL…

O deputado estadual reeleito Laerte Gomes, que superou a marca dos 30 mil votos, acredite: minha leitura é que, se tivesse disputado pelo PL, poderia ter alcançado uma votação ainda maior, talvez próxima dos 50 mil votos.

Laerte conseguiu a façanha de ser o deputado mais votado de Rondônia entre os candidatos do Partido Social Democrático, o PSD.

Embora seja um partido de centro, como o MDB, o PSD manteve forte alinhamento com o governo Lula. Em 2024, levantamento da consultoria Ética Inteligência Política mostrou que a orientação da bancada foi favorável ao governo em 81% das votações na Câmara e 80% no Senado. Para boa parte da direita rondoniense, esse alinhamento é politicamente malvisto.

A filiação ao PSD foi uma decisão que Laerte levou em conta não apenas pela matemática eleitoral, a possibilidade de a nominata ser capaz de eleger deputado, mas também porque estava entre as poucas opções viáveis que lhe restavam.

 

Fenômenos nesta eleição

Imagine uma deputada que foi eleita pela primeira vez em 2022 com 8.845 votos e reeleita quatro anos mais tarde com 24.383 votos, ficando entre os oito candidatos mais votados para a Assembleia Legislativa. Vamos acrescentar a isso o fato de ela ser de esquerda e petista em um estado predominantemente bolsonarista e de direita.

Essa façanha pertence a Cláudia de Jesus.

Ji-Paraná, sua base eleitoral, subiu de 3.597 votos em 2022 para 6.482 votos em 2026, mas Porto Velho saltou de 361 para 3.470 votos. Também houve crescimento em vários outros municípios.

 

Nim

Nim Barroso (PL) também teve um feito surpreendente. Saiu de uma votação de 7.609 votos em 2022 para quase 30 mil votos em 2026, ficando em segundo lugar.

Trata-se de um feito enorme, mas, por ser um bolsonarista, ele teve a vantagem de navegar sua campanha em um cenário favorável à direita. Isso, de forma alguma, tira o brilho do mérito. Apenas exponho os dois resultados para pontuar o grau de dificuldade, comparado ao de Cláudia de Jesus, por ser uma petista em Rondônia.

Tanto que, em Presidente Médici, por exemplo, Nim passou de 286 para 2.007 votos, e, em Porto Velho, de 247 para 1.283.

 

Ninho é recordista entre os estreantes na política

Os oito deputados eleitos que representam a renovação da Assembleia Legislativa para o mandato que começa no ano que vem não são estreantes na política: todos já disputaram uma eleição e outros já tiveram mandato eletivo.

O único estreante de verdade, que nunca disputou nenhum cargo eletivo e que teve mais votos do que quatro deputados estaduais eleitos, é Ninho Testoni.

Ele superou a marca dos 18 mil votos. Saiu de Ouro Preto do Oeste, sua base eleitoral, com mais de seis mil votos, e conquistou o restante em outros municípios.

É um dado curioso: um candidato sem experiência eleitoral anterior conseguiu uma votação superior à de quatro deputados que conquistaram uma cadeira na Assembleia Legislativa. Ninho, porém, ficou como suplente.

 

Doutora Taíssa

Dra. Taíssa Sousa, deputada estadual de Rondônia, que tem sua principal base política em Guajará-Mirim, foi eleita pela primeira vez em 2022 com 7.649 votos. Agora, em 2026, foi reeleita com 22.249 votos em Rondônia.

Em Guajará-Mirim, especificamente, ela passou de 6.477 votos em 2022 para 8.556 votos em 2026. Esse ganho pode ser explicado não apenas pelo trabalho dela, mas também pelo fato de ser bolsonarista.

Um detalhe interessante: em 2022, 84,7% de todos os votos estaduais dela vieram de Guajará-Mirim. Em 2026, embora tenha aumentado sua votação na cidade, ela ampliou bastante sua votação para outros municípios, especialmente Nova Mamoré e Porto Velho.

 

Quer subir a rampa

O ICL publicou que o ministro Kassio Nunes Marques teria sinalizado julgar, após o segundo turno, o pedido de soltura de Bolsonaro e avalia libertar o ex-presidente por meio de liminar.

O senador Flávio Bolsonaro (PL) prometeu indulto ao ex-presidente caso vença o segundo turno contra Lula (PT).

Independentemente de Flávio vencer ou não as eleições, o novo Congresso, com maioria da direita, deverá encontrar meios para tentar livrar Bolsonaro da cadeia.

 

Curiosidade operacional

Das 4.698 urnas eletrônicas utilizadas em Rondônia, apenas uma precisou ser substituída durante a votação por problema de bateria.

Você percebeu que ninguém reclamou da qualidade e da lisura das urnas? Até Trump elogiou — e, ao fazer isso, confundiu o Brasil com a Índia.

Que venha o segundo turno.

 

PL com mais de um bi

Uma análise publicada pelo ICL Notícias calculou que, se forem mantidos o valor do Fundo Eleitoral de 2026 e as regras atuais, o PL poderá receber mais de R$ 1,1 bilhão para a eleição de 2030.

 

Queda de braço

O grupo de Flávio Bolsonaro não conseguiu impedir a discussão sobre o fim da escala 6×1, mas pode melar a votação.

Um dos motivos é que o fim da escala 6×1 é uma bandeira de Lula na tentativa de conseguir alguns votos a mais neste segundo turno.

O tempo é bem curto.

 

Arapongagem no Brasil

Ex-espião dos EUA diz que há evidências de ação da CIA na eleição brasileira.

Isso não é novidade. Há décadas os Estados Unidos fazem isso não só nas Américas, mas também no resto do mundo.

Certa vez, até a intimidade da ex-presidente Dilma Rousseff teria sido espionada pela inteligência norte-americana.

Ah, esse ex-agente ficou famoso por denunciar torturas contra presos durante o governo Bush.

Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista  político.

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