Lista de comércios que apoiaram Lula circula nas redes em Rondônia com proposta de boicote

Relação de estabelecimentos comerciais é compartilhada nas redes sociais e levanta debate sobre intolerância política, liberdade de escolha e possíveis prejuízos econômicos.

Quando a maioria tenta intimidar a minoria

O voto é um dos pilares da democracia. Transformá-lo em motivo de perseguição ou constrangimento é um perigoso retrocesso civilizatório.

O que está acontecendo em Ji-Paraná, com a circulação de uma lista de estabelecimentos comerciais, fornecedores e prestadores de serviços supostamente ligados a eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva, merece uma reflexão que vai muito além da disputa política.

O problema não é a preferência política

O problema não está em ser de direita ou de esquerda, tampouco em defender Bolsonaro ou Lula. Cada cidadão tem o direito de escolher seus representantes de acordo com suas convicções. O problema começa quando essa escolha passa a ser tratada como uma espécie de pecado político, algo a ser exposto, condenado e punido pela sociedade.

Em uma cidade onde a direita e o bolsonarismo têm expressiva força eleitoral, a pressão exercida pela maioria pode produzir um ambiente de intimidação contra aqueles que pensam de maneira diferente. E é justamente aí que reside o perigo: a força dos números não pode se transformar em autorização para constranger o indivíduo.

O voto não pode virar motivo de medo

O voto é secreto, pessoal e livre. Não deveria ser necessário esconder as próprias convicções por medo de perder clientes, sofrer represálias ou ter o nome de um estabelecimento exposto nas redes sociais por uma preferência política atribuída ao seu proprietário.

A história deixa sinais de alerta

A história nos oferece exemplos de como a identificação pública de pessoas e a pressão econômica podem ser empregadas como instrumentos de exclusão. Na Alemanha de 1933, o regime nazista promoveu um boicote aos estabelecimentos de judeus, em um processo de perseguição que se agravaria dramaticamente nos anos seguintes. Não se trata de equiparar os acontecimentos atuais àquela tragédia histórica, mas de reconhecer que a intolerância e a exclusão merecem atenção antes que sejam naturalizadas.

Das redes sociais para a vida real

O que torna o episódio ainda mais preocupante é a capacidade de as redes sociais transportarem a hostilidade do mundo virtual para a vida real. Uma lista compartilhada em grupos e plataformas digitais pode ultrapassar a fronteira da opinião e produzir consequências concretas: constrangimento, perda de clientes, conflitos pessoais e prejuízos econômicos.

O efeito manada

É o efeito manada: pessoas passam a reproduzir comportamentos e julgamentos coletivos sem necessariamente verificar os fatos ou refletir sobre as consequências. O indivíduo desaparece atrás da multidão, e aquilo que talvez não tivesse coragem de fazer sozinho passa a parecer aceitável quando compartilhado por muitos.

Esse comportamento não pertence exclusivamente a uma ideologia. Pode surgir em diferentes campos políticos, sempre que a intolerância substitui o respeito à divergência. Mas isso não diminui a gravidade do que está sendo relatado em Ji-Paraná. Ao contrário: reforça a necessidade de condenar qualquer tentativa de transformar a preferência eleitoral de um cidadão em motivo para sua exclusão econômica ou social.

A maioria também tem limites

A democracia não consiste apenas em votar e contar os votos. Consiste também em respeitar quem votou de maneira diferente, inclusive quando essa pessoa pertence a uma minoria.

A maioria tem o direito de vencer eleições. Não tem o direito de transformar a vida dos derrotados — ou de quem simplesmente pensa diferente — em um tribunal permanente de constrangimento.

Quando o voto passa a ser motivo de intimidação, não é apenas o cidadão que perde sua liberdade. É a própria democracia que começa a perder uma de suas razões fundamentais de existir: garantir que pessoas diferentes possam conviver, trabalhar e exercer seus direitos sem medo umas das outras.

*Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.

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