Com respostas apoiadas em papéis, ataques previsíveis e frases pensadas para virar corte, o debate eleitoral perde força justamente onde deveria ganhar: no confronto de ideias.
Corte x Debate
O modelo de debate político adotado pelas emissoras, somado à falta de preparo da maioria dos candidatos, torna o acontecimento cansativo e, muitas vezes, inconsistente. A estratégia parece ser formular algum questionamento ou resposta que possa ser aproveitado posteriormente em forma de corte nas redes sociais. Até porque o efeito de 15 ou 30 segundos de um recorte bem produzido pode alcançar muito mais gente e até viralizar do que um debate longo, cansativo e, em alguns momentos, improdutivo.
*Evidente*
É evidente que a presença de Pedro Abib (MDB) representa uma concorrência natural para Hildon Chaves (União Brasil). Isso se deve ao fato de Pedro se identificar com um eleitorado que não se deixa influenciar tanto pelas bolhas do extremismo tão presentes nas redes sociais.
Ou seja: na ausência de Pedro Abib, para quem iria boa parte desse eleitorado? Para Hildon Chaves?
*Fúria beneficiado*
Em tese, quem consegue uma leve vantagem com a entrada de Pedro Abib na disputa é Adailton Fúria. Parte do universo eleitoral disputável por Abib também está no território político de Hildon Chaves, o que estabelece entre os dois uma concorrência natural.
É uma matemática eleitoral que ainda precisa ser observada, mas que não pode ser ignorada.
*Esquerda se estranha*
Os ataques de Samuel Costa (PSB) a Expedito Netto (PT) no debate da Band/Rondônia revelam que o bastidor da convenção ficou mais escorregadio e insalubre do que piso de matadouro clandestino.
A esquerda, que deveria caminhar no mesmo campo ideológico, já começa a se estranhar antes mesmo da eleição.
*Precisa melhorar*
Hildon Chaves deixou transparecer uma evidente sensação de insegurança em alguns momentos do debate, principalmente quando folheava os papéis que lhe davam suporte para as respostas.
Muito embora tenha conteúdo e conhecimento acumulados por sua formação e experiência, precisa melhorar a forma de apresentá-los. Se Hildon não conseguir transformar esse conteúdo em respostas mais naturais e objetivas, terá dificuldade para expor seus posicionamentos com a força necessária em um debate.
*Amadureceu muito*
Em termos de forma e conteúdo, a fórmula adotada por Marcos Rogério melhorou muito em relação à última campanha para o governo.
A barba e os cabelos grisalhos, somados ao tom de voz e à musicalidade verbal, formam um conjunto que transmite mais maturidade na construção da candidatura.
É uma mudança perceptível na maneira de se apresentar e de ocupar o espaço do debate.
*Inconsistências*
Embora tenha raciocínio rápido, a jovialidade de Adailton Fúria ainda não transmite a confiança necessária para quem pretende governar um Estado.
Sua principal referência é a Prefeitura de Cacoal. No entanto, o chamado milagre administrativo que tenta ser vendido está longe da imagem que Ivo Cassol conseguiu construir quando deixou a Prefeitura de Rolim de Moura para disputar o Governo de Rondônia em 2002.
E vale lembrar: naquela época não havia WhatsApp, Facebook, Instagram nem a máquina de propagação instantânea das redes sociais.
Cassol conseguiu transformar a experiência municipal em uma narrativa política que ultrapassou as fronteiras de Rolim de Moura. Fúria ainda precisa demonstrar que consegue fazer o mesmo e convencer que é tudo isso mesmo.
*Para baixo do tapete*
Além do governador Marcos Rocha, que se tornou uma espécie de braço-direito de sua campanha, difícil mesmo seria explicar o papel de Expedito Júnior na construção da candidatura de Adailton Fúria.
Expedito Júnior foi um dos grandes articuladores do projeto Fúria. A candidatura ganhou consistência a partir dessa articulação política.
E há uma ironia no meio desse caminho: Expedito Júnior é pai de Expedito Netto, candidato do PT que acabou sendo atacado por Samuel Costa durante o debate.
A política tem dessas coisas. Às vezes, aquilo que se tenta esconder embaixo do tapete é justamente o que mais chama a atenção.
Netto
Expedito Netto (PT) tem um discurso progressista, mas é obrigado a navegar em um universo contaminado por contrainformação e meias verdades.
Sua forma contundente de expor os posicionamentos, entretanto, muitas vezes soa obtusa, como se estivesse falando sem microfone em um campo de batalha. Em política, não basta ter o que dizer. É preciso saber como fazer o eleitor ouvir.
Corte x debate
No fim das contas, talvez esse seja o grande problema dos debates atuais: candidatos e equipes parecem cada vez mais preocupados com os 30 segundos que podem viralizar do que com as duas horas de exposição que deveriam servir para mostrar quem está preparado para governar. O corte pode ganhar a rede. Mas é no debate que o candidato deveria ganhar o eleitor.
“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”
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