E se Moraes e Mendonça caíssem juntos?

*Num exercício de hipótese, a saída simultânea dos dois ministros do STF transformaria o caso Vorcaro numa crise institucional capaz de alterar o jogo eleitoral de 2026.*

 

Por Roberto Gutierrez – Há momentos em que a política deixa de trabalhar apenas com aquilo que está acontecendo e começa a trabalhar com aquilo que poderia acontecer.

É exatamente nesse terreno que vale fazer uma pergunta incômoda:

E se Alexandre de Moraes e André Mendonça fossem afastados do Supremo Tribunal Federal?

Não estou dizendo que isso esteja acontecendo. Tampouco que existam, neste momento, elementos jurídicos suficientes para afirmar que os dois perderão seus cargos.

É apenas uma hipótese.

Mas é uma hipótese que permite enxergar o tamanho da crise que poderia surgir caso as investigações envolvendo Daniel Vorcaro produzissem consequências capazes de atingir simultaneamente os dois ministros.

E, nesse cenário, a eleição de 2026 poderia ganhar outro rumo.

 

*O que teria de acontecer?*

Ministro do Supremo não pode simplesmente ser afastado pelo presidente da República ou por uma decisão política comum do Congresso.

A Constituição estabelece que cabe ao Senado Federal processar e julgar ministros do STF por crimes de responsabilidade. A Lei nº 1.079/1950 também prevê a possibilidade de perda do cargo em caso de condenação. Portanto, seria necessário um processo político-jurídico, com acusação, tramitação e julgamento, e não simplesmente uma decisão administrativa.

Ou seja: para chegar ao ponto de dois ministros deixarem o STF, estaríamos diante de uma situação excepcionalíssima.

Mas suponhamos que isso acontecesse.

 

*Moraes fora do STF*

A saída de Alexandre de Moraes seria, por si só, um terremoto político.

Moraes não é hoje apenas um ministro do Supremo.

Ele se tornou, para boa parte da direita brasileira, o símbolo máximo da reação institucional ao bolsonarismo.

Sua saída seria imediatamente apresentada por Flávio Bolsonaro e seus aliados como uma vitória histórica.

Seria inevitável que a campanha bolsonarista dissesse:

“O sistema começou a ruir.”

E isso teria enorme repercussão eleitoral.

Mas a história ficaria muito mais complicada se, no mesmo processo, André Mendonça também deixasse a Corte.

 

*E se Mendonça caísse junto?*

Aqui está o ponto que muda tudo.

André Mendonça foi indicado ao STF por Jair Bolsonaro.

Portanto, se Moraes e Mendonça fossem afastados no mesmo contexto, seria muito mais difícil vender a história como uma simples vitória de Bolsonaro contra o STF ou como uma derrota da esquerda.

A pergunta passaria a ser outra:

O problema era Alexandre de Moraes ou era a relação entre o poder público e Daniel Vorcaro?

Essa diferença é enorme.

Porque Vorcaro aparece relacionado a personagens de campos políticos diferentes.

E é justamente aí que a narrativa eleitoral poderia escapar do controle de todos.

 

*A bomba que atravessa a polarização*

De um lado, há as revelações envolvendo Moraes e seu círculo profissional.

De outro, aparece a relação de Flávio Bolsonaro com Vorcaro.

E, no meio desse tabuleiro, surge André Mendonça, o ministro indicado por Bolsonaro, que também teve contato com o banqueiro.

Isso cria uma situação politicamente desconfortável.

Se somente Moraes fosse afastado, Flávio Bolsonaro teria uma narrativa eleitoral relativamente simples:

“Moraes caiu.”

Mas se Moraes e Mendonça caíssem juntos, a narrativa seria muito mais difícil:

“Dois ministros de origens políticas diferentes foram atingidos pelo mesmo escândalo.”

Nesse cenário, Vorcaro deixaria de ser apenas uma arma contra o adversário.

Viraria o personagem central de uma crise institucional.

 

*E Lula?*

Para Lula, seria um problema enorme.

Não necessariamente porque existisse alguma ligação direta do presidente com Vorcaro — isso teria que ser demonstrado por investigação, e não presumido.

O problema seria político.

Alexandre de Moraes é identificado por grande parte do eleitorado bolsonarista com o ambiente institucional que enfrentou Jair Bolsonaro.

Se Moraes caísse, Flávio Bolsonaro ganharia um argumento eleitoral poderoso.

Poderia dizer que a eleição não seria apenas sobre governo, economia ou programas sociais.

Seria sobre “derrubar o sistema que perseguiu Bolsonaro”.

Isso poderia mobilizar ainda mais a direita.

 

*Mas Lula também poderia reagir*

Existe, porém, uma saída política para o presidente.

Se a investigação atingisse Moraes e Mendonça de maneira semelhante, Lula poderia tentar ficar acima da disputa.

Em vez de defender pessoas, defenderia a investigação.

A mensagem poderia ser simples:

Se houver irregularidade, que seja investigada, independentemente de quem seja o ministro.

Isso permitiria a Lula tentar transformar uma crise institucional em uma defesa das instituições.

Seria uma estratégia arriscada, mas talvez fosse a única capaz de evitar que a queda de Moraes fosse transformada automaticamente numa derrota eleitoral do presidente.

 

*O problema para Flávio*

Flávio Bolsonaro também teria motivos para comemorar.

Mas teria um problema que não poderia ignorar.

Sua relação com Vorcaro.

Se o banqueiro se transformasse no personagem central da eleição, a oposição certamente perguntaria:

Se a relação com Vorcaro é suficiente para questionar Moraes, por que a relação de Vorcaro com Flávio deveria ser tratada de maneira diferente?

Essa pergunta seria inevitável.

E poderia transformar uma arma política em um bumerangue.

 

*Nove ministros ainda seriam suficientes*

Existe ainda uma questão prática.

Se dois ministros deixassem o STF, a Corte passaria de 11 para nove integrantes.

O Supremo não deixaria de funcionar.

As vagas poderiam posteriormente ser preenchidas por novos ministros indicados pelo presidente da República e submetidos à aprovação do Senado.

Mas aí estaria outra bomba política.

Quem escolheria os substitutos?

Se Lula estivesse no Palácio do Planalto, seria Lula.

Se Flávio Bolsonaro fosse presidente, seria Flávio.

Portanto, a saída de dois ministros poderia abrir uma das maiores disputas pela composição do STF em toda a história recente do país.

 

*O verdadeiro terremoto*

Mas talvez a maior consequência não estivesse na substituição dos ministros.

Estaria na confiança da população.

Imagine o eleitor assistindo à queda de dois ministros do Supremo, um indicado por Michel Temer e outro por Jair Bolsonaro, ambos envolvidos, por razões diferentes, no mesmo universo de um banqueiro investigado.

A conclusão de parte da sociedade poderia ser devastadora:

“O problema não é esquerda ou direita. O problema é o sistema.”

E quando o eleitor chega a essa conclusão, todos os políticos tradicionais correm riscos.

Inclusive aqueles que acreditam estar vencendo a eleição.

 

*Quem ganharia?*

No primeiro momento, Flávio Bolsonaro provavelmente seria o maior beneficiário político da queda de Moraes.

Sua base interpretaria o episódio como uma vitória.

Lula, por sua vez, sofreria pressão porque a oposição tentaria associá-lo ao ambiente político de Moraes.

Mas, se Mendonça também caísse, a vantagem de Flávio poderia diminuir.

Porque o caso deixaria de ser uma narrativa de direita contra esquerda.

Passaria a ser uma crise envolvendo instituições, banqueiros, políticos e ministros de diferentes origens.

E aí ninguém teria o controle completo da narrativa.

 

*A eleição poderia mudar de assunto*

Talvez essa seja a consequência mais importante.

Uma eleição que deveria discutir inflação, emprego, saúde, segurança, educação, impostos e crescimento poderia ser transformada numa disputa sobre:

STF, Moraes, Bolsonaro, Vorcaro e corrupção no sistema financeiro.

E isso interessa muito mais à oposição do que a Lula.

Porque Lula tem mais a perder quando a eleição abandona a discussão sobre seu governo e se transforma num julgamento político do sistema.

Flávio Bolsonaro, ao contrário, poderia tentar se apresentar como o candidato da ruptura.

 

*Mas existe uma última ironia*

Se Moraes e Mendonça caíssem juntos, ninguém poderia comemorar uma vitória completa.

Porque a queda de um ministro indicado por Temer e de outro indicado por Bolsonaro revelaria algo muito maior:

a crise não teria partido.

E talvez Daniel Vorcaro acabasse fazendo aquilo que nenhum político conseguiu fazer:

colocar os dois lados da polarização diante do mesmo espelho.

No fim, a pergunta deixaria de ser:

“Moraes está de um lado e Bolsonaro do outro?”

E passaria a ser:

“Quem realmente estava próximo de Vorcaro, e por quê?”

É aí que a eleição de 2026 poderia deixar de ser apenas uma disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Poderia se transformar numa disputa pela própria narrativa sobre quem representa o sistema e quem representa a mudança.

E, na política brasileira, quando o eleitor começa a perguntar quem é realmente o sistema, ninguém pode ter certeza de que está seguro.

 

“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”

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