*A política brasileira tem dessas ironias que parecem ter sido escritas por um roteirista: estou falando sobre o escândalo que começou no sistema financeiro chegou ao STF e agora contamina a disputa presidencial.*
Roberto Gutierrez – Daniel Vorcaro, o banqueiro que se transformou no centro de uma das maiores crises financeiras e institucionais do país, conseguiu colocar no mesmo enredo personagens que, normalmente, estariam em lados opostos do campo político.
De um lado, Alexandre de Moraes. Do outro, Flávio Bolsonaro. No meio, André Mendonça.
E, acima de todos eles, uma eleição presidencial que chega à reta final com Lula e Flávio Bolsonaro disputando uma eleição extremamente polarizada.
As revelações sobre a relação de Vorcaro com Alexandre de Moraes deram à oposição um presente político de enorme valor. Mensagens e documentos tornados públicos pelo ministro André Mendonça colocaram sob questionamento a proximidade entre Moraes, sua família e o ex-banqueiro do Banco Master.
É preciso, entretanto, fazer uma distinção importante: suspeita não é condenação. As revelações precisam ser investigadas e submetidas ao devido processo. Mas, eleitoralmente, o problema já existe.
E existe porque Alexandre de Moraes deixou de ser, há muito tempo, apenas um ministro do Supremo.
Para uma parcela expressiva do eleitorado, Moraes virou o símbolo máximo daquilo que o bolsonarismo chama de “sistema”.
É exatamente aí que Lula entra nessa história.
Não porque Lula tenha, até o momento, uma ligação demonstrada com Vorcaro.
Não porque Alexandre de Moraes tenha sido indicado por Lula, e não foi.
E muito menos porque exista prova de que Lula tenha participado das relações investigadas.
*O problema é político.*
Moraes é identificado pela direita como um dos principais adversários de Jair Bolsonaro. Foi ele quem esteve no centro das decisões que atingiram o ex-presidente e seus aliados. Por isso, a oposição tenta transformar qualquer desgaste de Moraes em desgaste do próprio Lula.
É uma associação eleitoral, não uma demonstração de envolvimento jurídico.
E ela pode funcionar.
*O problema para Flávio*
Mas existe uma dificuldade considerável nessa estratégia.
Flávio Bolsonaro também aparece no universo de relações com Daniel Vorcaro.
Reportagens apontam contatos entre Flávio e o banqueiro, inclusive relacionados ao financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. O próprio Flávio, entretanto, não tem tratado essa relação como equivalente àquela revelada envolvendo Moraes.
E aí aparece uma pergunta que a campanha de Flávio terá dificuldade de evitar:
Se Vorcaro é suficientemente problemático para comprometer Alexandre de Moraes, por que a relação de Vorcaro com Flávio seria politicamente irrelevante?
Essa pergunta pode se transformar numa espécie de bumerangue.
Flávio está tentando construir uma narrativa segundo a qual Moraes representa a face contaminada do sistema e André Mendonça representa o ministro que está desvendando essa contaminação.
*A estratégia funcionou muito bem no 7 de Setembro*
Na Avenida Paulista, Flávio atacou Moraes, associou o ministro a Lula e, ao mesmo tempo, defendeu Mendonça. A crise do STF passou a ocupar um espaço central na campanha.
Mas há uma fragilidade nessa construção:
André Mendonça também esteve com Vorcaro.
O encontro ocorreu em março de 2025, segundo mensagens e áudios divulgados posteriormente. Flávio tratou o episódio como uma tentativa de criar uma “cortina de fumaça” e afirmou que se tratava de uma agenda profissional.
*Politicamente, portanto, temos uma situação curiosa*
Vorcaro aproxima, direta ou indiretamente, Moraes, Mendonça e Flávio Bolsonaro.
Isso dificulta transformar o banqueiro em um personagem exclusivamente associado ao campo adversário.
*Quem ganha com a crise?*
Flávio Bolsonaro ganha o primeiro round.
Ele conseguiu transformar um escândalo financeiro em uma discussão sobre o Supremo, Alexandre de Moraes e a suposta perseguição ao bolsonarismo.
É uma pauta que conversa diretamente com sua base eleitoral.
E mais: desloca a discussão daquilo que normalmente favoreceria Lula, economia, programas sociais, emprego, renda e máquina administrativa, para um terreno em que o bolsonarismo tem enorme capacidade de mobilização.
Mas Flávio pode perder o segundo round se a oposição insistir demais em Vorcaro e a relação dele com o próprio candidato.
É aí que Lula pode reagir.
E Lula?
Lula tem, neste momento, uma alternativa que considero mais inteligente do que entrar numa guerra pessoal com Moraes.
*Separar Lula do ministro*
A campanha petista não deveria assumir automaticamente a defesa de cada ato de Alexandre de Moraes.
Deveria defender a instituição, defender a investigação e defender que, se houve irregularidade, que ela seja apurada.
Essa posição permitiria a Lula dizer, em essência:
Não sou responsável pelas relações pessoais de ministros do Supremo. Se houve erro, que seja investigado.
Isso tiraria da oposição uma parte importante da narrativa de que “Lula protege Moraes”.
O problema é que o ambiente eleitoral é muito mais simples do que a realidade jurídica.
Para uma parcela do eleitorado, a equação pode ser reduzida a:
Moraes = STF = sistema = Lula.
E essa simplificação é perigosa para o presidente.
*O verdadeiro risco para Lula*
O maior perigo para Lula talvez nem seja a acusação contra Moraes.
É a possibilidade de o tema contaminar a percepção de todo o sistema institucional.
Quando o eleitor começa a acreditar que ministros do STF, banqueiros, políticos e empresários transitam em um mesmo círculo de interesses, a discussão deixa de ser apenas “Moraes contra Bolsonaro”.
Passa a ser:
*”Quem controla o poder no Brasil?”*
E essa é uma pergunta que costuma favorecer candidatos que se apresentam como outsiders, mesmo quando eles próprios fazem parte da política tradicional.
Flávio Bolsonaro percebeu isso rapidamente.
O 7 de Setembro mostrou que a crise pode ser transformada em combustível eleitoral. Pesquisas recentes, porém, ainda não permitem afirmar que o episódio tenha produzido uma virada definitiva na disputa. A Reuters, por exemplo, registrou uma corrida apertada, com Lula e Flávio empatados em 41% num cenário de segundo turno citado pela pesquisa Quaest.
Portanto, não é possível dizer que Vorcaro “tirou votos” de Lula.
Mas é possível dizer outra coisa:
Vorcaro mudou o assunto da eleição.
E isso, faltando poucas semanas para o primeiro turno, já é politicamente muito relevante.
*A ironia final*
A maior ironia dessa história é que Flávio Bolsonaro pode estar tentando usar Vorcaro para atingir Lula por meio de Alexandre de Moraes.
Só que o mesmo Vorcaro aparece relacionado ao próprio Flávio.
E André Mendonça, o ministro que abriu a caixa-preta da relação Moraes-Vorcaro, também aparece em contato com o banqueiro.
Ou seja:
Vorcaro não pertence à esquerda.
Vorcaro não pertence à direita.
Vorcaro pertence ao problema.
E quanto mais documentos forem revelados, mais difícil poderá ficar para qualquer lado transformar esse caso em propriedade exclusiva do adversário.
No fim, a eleição de 2026 pode acabar sendo decidida menos pelaquilo que cada candidato diz sobre Vorcaro e mais pela capacidade de convencer o eleitor de uma coisa muito simples:
quem, afinal, está tentando esclarecer o escândalo, e quem está tentando apenas transformá-lo em instrumento eleitoral?
Essa talvez seja a pergunta que realmente interessa.
“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”
Faça um comentário