Orçamento bilionário, despesas obrigatórias e a dívida histórica do Beron colocam em evidência uma questão essencial: quanto dos recursos públicos chegará efetivamente à população?
O orçamento de Rondônia para 2027 está estimado em R$ 20,44 bilhões. É muito dinheiro. Um crescimento de 9,62% em relação ao orçamento deste ano. A primeira impressão é de que o Estado terá condições de fazer muito mais. Mas existe uma pergunta que precisa ser respondida: quanto desse dinheiro será efetivamente transformado em investimentos e melhorias para a população?
Não basta olhar para o tamanho do orçamento. É preciso saber como o dinheiro será distribuído, quais compromissos já estão assumidos e quanto sobrará para fazer aquilo que a população espera do poder público.
O dinheiro tem destino antes mesmo de chegar
Uma parte considerável do orçamento já tem destino obrigatório. São salários, encargos, previdência, contratos, manutenção da máquina administrativa, repasses aos municípios e despesas dos Poderes.
Nada disso é dispensável. O Estado precisa funcionar, pagar seus servidores e manter os serviços públicos. O problema começa quando as despesas permanentes crescem a ponto de reduzir o espaço para novos investimentos.
É aí que precisamos olhar além dos números apresentados nas solenidades e nos discursos oficiais.
Hospitais não se constroem apenas com anúncios
Na Saúde, Rondônia continua diante de desafios conhecidos. Filas de cirurgias, consultas especializadas, falta de estrutura em determinadas unidades e necessidade de ampliar a capacidade hospitalar.
Construir um hospital é importante, mas não resolve tudo. É preciso contratar profissionais, comprar equipamentos, manter serviços e garantir recursos para o funcionamento.
O mesmo raciocínio vale para a Educação. Não basta anunciar escolas novas. É necessário reformar as existentes, melhorar o transporte escolar, oferecer tecnologia e assegurar condições adequadas para professores e estudantes.
Na Segurança Pública, viaturas e equipamentos são importantes, mas também precisamos de efetivo, inteligência, estrutura e presença policial nos municípios.
E, quando chegamos à Infraestrutura, a conversa passa pelas rodovias, pontes e estradas vicinais. Para um estado com a dimensão territorial e a força produtiva de Rondônia, estrada em boas condições não é luxo. É necessidade econômica.
Uma situação fiscal que merece ser aproveitada
Há outro aspecto que chama a atenção. Rondônia apresenta indicadores fiscais favoráveis.
Os demonstrativos do segundo quadrimestre de 2026 apontam dívida consolidada de aproximadamente R$ 5,7 bilhões. Entretanto, a dívida consolidada líquida apresentou resultado negativo de aproximadamente R$ 459,8 milhões.
Traduzindo para uma linguagem mais simples: pelos critérios utilizados no cálculo, os ativos financeiros considerados superavam as obrigações incluídas na dívida líquida.
O Estado também mantém classificação Capag A+, que demonstra boa capacidade de pagamento e favorece o acesso a operações de crédito.
Isso não significa que Rondônia não tenha dívidas ou que possa gastar sem limites. Significa, porém, que parte de suas condições fiscais é favorável e precisa ser utilizada com responsabilidade.
A conta do antigo Beron
A dívida histórica relacionada ao antigo Banco do Estado de Rondônia, o Beron, continua merecendo atenção.
Com a adesão ao Propag, o Estado anunciou condições mais favoráveis para o refinanciamento, incluindo a eliminação dos juros reais e uma nova forma de atualização monetária.
O governo divulgou uma economia estimada superior a R$ 11 bilhões ao longo do período de refinanciamento.
É uma cifra expressiva. Mas precisamos compreender uma coisa: essa economia não representa R$ 11 bilhões disponíveis imediatamente no caixa estadual. É uma projeção acumulada ao longo dos anos.
O que interessa saber agora é quanto será economizado efetivamente em 2027 e como essa economia poderá contribuir para ampliar os investimentos.
A pergunta que precisa de resposta
A SEPOG e a SEFIN precisam apresentar à sociedade uma radiografia mais clara do orçamento.
Quanto dos R$ 20,44 bilhões será destinado à Saúde? Quanto irá para a Educação? Qual será o orçamento da Segurança Pública? Quanto será aplicado em rodovias, pontes e estradas vicinais?
E, principalmente, quanto ficará comprometido com salários, previdência, custeio administrativo e pagamento da dívida?
Não estamos falando de uma curiosidade contábil. Estamos falando do dinheiro que pertence à população e que precisa retornar em forma de serviços, obras e oportunidades.
Um novo governo, uma nova responsabilidade
Existe ainda uma particularidade política nessa discussão. O orçamento de 2027 foi elaborado durante a administração atual, mas será executado por um novo governo, sob o comando de Marcos Rogério.
Isso exige responsabilidade de quem entrega e de quem recebe a administração. A sorte de Marcos Rogério é contar com uma baita equipe de Transição que tem personagens como o coordenador Lucio Mosquini, Silas Queiros, Camata Júnior, Ludmila Lucas entre tantos talentosos que compõem.
O novo governador encontrará compromissos assumidos, contratos em andamento, despesas permanentes e investimentos que precisam ter continuidade. Ao mesmo tempo, terá a responsabilidade de estabelecer suas próprias prioridades.
Não será suficiente atribuir dificuldades ao orçamento herdado. Será necessário mostrar capacidade de gestão, planejamento e escolha.
Dinheiro público precisa aparecer na vida das pessoas
Rondônia chega a 2027 com uma previsão orçamentária superior a R$ 20 bilhões, indicadores fiscais favoráveis e oportunidades de ampliar investimentos.
Mas o cidadão não mede a qualidade de um governo pelo tamanho dos números publicados no Diário Oficial.
Mede pelo atendimento que recebe no hospital, pela escola onde o filho estuda, pela segurança na rua, pela estrada que utiliza e pela oportunidade de trabalhar e produzir.
É por isso que a discussão sobre o orçamento precisa sair dos gabinetes e chegar à sociedade.
Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.
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