A eleição deixou sinais claros sobre a força do bolsonarismo, a dificuldade da esquerda em ampliar seu espaço e a mudança no comportamento do eleitor. Entre surpresas, derrotas e fenômenos eleitorais, as urnas também revelaram que a política de hoje exige muito mais do que o tradicional corpo a corpo.
Bruno Scheid e o voto casado com Fernando Máximo
A votação expressiva de Bruno Scheid para o Senado revela que seus votos, em grande parte, foram casados com os de Fernando Máximo.
Tomando Ji-Paraná como exemplo, município que concentra o domicílio eleitoral de Silvia Cristina, Acir Gurgacz e Bruno Scheid, o resultado foi o seguinte: Fernando Máximo teve 42.572 votos; Bruno Scheid, 40.218; Silvia Cristina, 25.189; e Acir Gurgacz, 10.080.
O voto da direita bolsonarista decidiu fechar nos dois candidatos identificados com esse campo político. Silvia Cristina não conseguiu furar a bolha bolsonarista como segunda opção de voto.
Silvia Cristina e o peso de uma eleição sem padrinho
Silvia também percebeu, nesta campanha, como um conceito preestabelecido contra as escolhas de uma mulher, ainda mais sendo negra e de origem pobre, pode fazer com que parte do eleitorado simplesmente se torne indiferente, como se o encanto tivesse se perdido, e desista de votar.
Silvia Cristina transformou o drama de sua própria vida em bandeira de luta política, tendo como principal foco a saúde e o combate ao câncer. Mas isso não foi suficiente na hora do voto.
Pesaram ainda a falta de um candidato a governador com quem pudesse se apoiar, a estrutura de campanha e a ausência de um grupo capaz de acolhê-la de verdade, e não de miná-la, como ocorreu.
Acir Gurgacz, um capítulo à parte
Já Acir Gurgacz é um capítulo à parte. Algo surpreendente aconteceu: a rejeição a Lula em Rondônia afetou mais Acir do que o próprio Lula.
Tanto que Luciana Oliveira, candidata ao Senado pelo PT, ficou um pouco à frente de Acir.
A campanha dele, tanto no mundo real quanto no campo digital, obteve, na minha análise, nota máxima. Mas não conseguiu resultado satisfatório porque já havia, no inconsciente coletivo de boa parte da direita, uma predisposição a rejeitar qualquer candidato que não estivesse dentro do pensamento bolsonarista.
Essa rejeição foi alimentada pela construção de inimigos mortais, como o STF, o petismo, o comunismo, o chamado Foro de São Paulo e as pautas de costumes.
Diante desse quadro, por mais que a votação de Acir Gurgacz esteja abaixo do satisfatório, isso jamais tira o mérito de que ele é, em minha avaliação, o mais preparado e capaz, nos aspectos políticos e de gestão pública, entre os concorrentes.
Ele apenas deu azar de ser candidato em um tempo em que a fidelidade política virou mantra e encontra nos algoritmos o eco perfeito para se reproduzir.
Soube aproveitar a oportunidade
Há ainda uma curiosidade na história política de Rondônia com relação ao ex-senador Acir Gurgacz.
O atual governador eleito de Rondônia, Marcos Rogério, nasceu politicamente ganhando espaço e notoriedade com as bênçãos políticas de Acir Gurgacz.
Marcos precisou sair da sombra da árvore frondosa, criar luz própria para se tornar o que é hoje.
A política, afinal, tem dessas coisas: quem um dia ajudou a construir uma liderança pode, anos depois, assistir a essa liderança percorrer um caminho completamente diferente do seu.
Cláudia de Jesus e Fátima Cleide: o PT resiste
A eleição de duas representantes do PT para a Assembleia Legislativa de Rondônia chama atenção pelo contexto político de Rondônia.
Em uma eleição marcada pela força eleitoral do PL, que elegeu o governador ainda no primeiro turno e conquistou uma bancada expressiva na Assembleia, além de três deputados Federais, sendo o mais votado Lúcio Mosquini com mais de 150 mil votos, o PT conseguiu garantir duas cadeiras, com Cláudia de Jesus e Fátima Cleide, a ex-senadora do Lula.
É um resultado que merece ser analisado não apenas pelo número de votos, mas pela capacidade da legenda de preservar espaço eleitoral em um ambiente político fortemente marcado pela direita.
As duas cadeiras mostram que, apesar da predominância conservadora, o PT ainda mantém uma base eleitoral capaz de sobreviver e eleger representantes para o Legislativo estadual.
Fúria não ficará desempregado
Adailton Fúria, no sentido figurado, não ficará desempregado após a derrota na disputa pelo governo.
Sua mulher, Joliane Fúria, conseguiu se eleger deputada federal com 42.528 votos. Sem dúvida, Fúria será o braço-direito não remunerado da mulher para assessorá-la nos próximos quatro anos.
Além de Joliane, também foram eleitas deputadas federais Sofia Andrade, do PL, com 37.984 votos, e Cristiane Lopes, do Podemos, com 37.005.
A eleição de três mulheres para representar Rondônia na Câmara Federal é uma notícia importante, mas esse feito não é inédito.
Em 2018, Mariana Carvalho, pelo PSDB, Jaqueline Cassol, pelo PP, e Silvia Cristina formaram a maior bancada feminina da história de Rondônia até então.
Mas, em termos de pioneirismo, é preciso lembrar de Rita Furtado, a primeira mulher eleita deputada federal por Rondônia, em 1982, tornando-se uma pioneira da representação feminina na política do estado.
Ninho Testoni pode assumir como deputado
Eu aposto na possibilidade de Ninho Testoni assumir como deputado estadual ainda no primeiro semestre de 2027.
Não é descartada a possibilidade política de o governador eleito, Marcos Rogério, indicar um dos sete deputados eleitos pelo PL para uma secretaria de Estado, abrindo espaço para Ninho assumir.
A possibilidade ganha força porque Ninho obteve praticamente 19 mil votos, com mais de seis mil conquistados em Ouro Preto do Oeste. Ele faz parte da base do governador eleito pelo PL e seu pai, o prefeito Alex Testoni, é um forte aliado de Marcos Rogério.
É uma equação política que, se confirmada, poderá levar Ninho Testoni para a Assembleia Legislativa sem que seja necessário esperar uma próxima eleição.
Laerte Gomes e o fenômeno Nim Barroso
O título de deputado estadual mais votado de Rondônia para Laerte Gomes é surpreendente, mas não chega a ser algo que aqueles que acompanham o dia a dia da política não pudessem imaginar.
O que me surpreendeu foi Nim Barroso, do PL, aparecer como o segundo mais votado, com quase 30 mil votos.
Esse rapaz saiu de uma marca de 7.609 votos quando deixou de ser vereador de Ji-Paraná para se tornar deputado estadual pela primeira vez.
Nesta eleição, aumentou sua votação em quase quatro vezes: foram 22.053 votos a mais, o equivalente a quase 300% de crescimento.
Os números revelam que Nim Barroso é um fenômeno eleitoral.
Mais do que a quantidade de votos, o caso de Nim merece atenção pelo ritmo de crescimento. Ele conseguiu transformar uma primeira eleição estadual relativamente modesta em uma votação que o colocou entre os maiores fenômenos eleitorais desta disputa.
A pergunta agora é até onde esse crescimento pode levá-lo.
Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.
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