Paraguai destitui presidente e coloca Santiago Peña em prisão domiciliar após escândalo bancário

Houve manifestações de grande proporção no Paraguai, com episódios de violência, confronto com a polícia, depredação de uma agência bancária e prisões.

Impeachment foi aprovado por unanimidade no Senado após crise do banco Ueno, que deixou milhões de clientes com dificuldades para acessar suas economias.

Da redação – O Paraguai vive uma das maiores crises políticas e financeiras de sua história recente. O Senado destituiu o presidente Santiago Peña na sexta-feira (6), em um processo de impeachment relacionado ao colapso do banco digital Ueno. Horas depois, o ex-presidente foi colocado em prisão domiciliar por determinação do Ministério Público. A crise atingiu o governo, abalou o sistema financeiro e provocou manifestações populares em Assunção e outras cidades. A situação também resultou na mudança do comando do país, com a posse do então vice-presidente Pedro Alliana.

A decisão de afastar Peña foi aprovada pelos 44 senadores presentes. O processo avançou mesmo depois de o presidente ter apresentado sua renúncia na quinta-feira (5).

Prisão domiciliar e investigação criminal

Depois da destituição, o Ministério Público determinou a detenção de Santiago Peña e do ex-presidente do Banco Central Carlos Carvallo.

A ordem contra Peña estabelece que ele permaneça em sua residência, em Assunção, até ser apresentado às autoridades responsáveis pela investigação. Carvallo também teve a prisão determinada, mas deverá ficar em uma unidade indicada pela Polícia Nacional.

Segundo o Ministério Público, os dois são investigados no âmbito de uma ação penal que apura suspeitas de lesão de confiança e outros possíveis crimes relacionados ao caso Ueno Bank.

Entre as acusações levantadas contra Peña estão suspeitas de conflito de interesses, influência política sobre órgãos de fiscalização e utilização do cargo para favorecer interesses privados.

O ex-presidente nega irregularidades e afirma que pretende colaborar com as investigações. As acusações ainda dependem de apuração e julgamento.

Banco Ueno provocou uma crise nacional

O centro da crise é o Ueno Bank, instituição financeira digital que cresceu rapidamente nos últimos anos e chegou a atender aproximadamente 2,9 milhões de clientes, em um país com cerca de 6,1 milhões de habitantes.

A instituição foi assumida pelas autoridades reguladoras depois que problemas financeiros e suspeitas sobre operações de crédito comprometeram sua situação.

Com a intervenção, clientes enfrentaram dificuldades para movimentar dinheiro, acessar contas, realizar pagamentos e utilizar cartões bancários.

O problema ultrapassou o setor privado. Recursos públicos e valores de instituições previdenciárias também estavam depositados na instituição, aumentando a dimensão política e econômica do episódio.

A crise atingiu trabalhadores, aposentados, pensionistas e pequenos empresários. A paralisação dos serviços provocou protestos de correntistas que exigem a devolução dos recursos.

Relação política e empresarial entrou na investigação

Um dos pontos centrais do processo é a antiga relação de Santiago Peña com o grupo empresarial ligado ao banco. Em Assunção, manifestantes foram às ruas com bandeiras paraguaias, cartazes contra Santiago Peña e cobranças por devolução do dinheiro. O ex-presidente manteve participação em uma empresa associada ao conglomerado controlador do Ueno até 2025. Também nomeou Carlos Carvallo para comandar o Banco Central em 2023. Carvallo havia dirigido anteriormente uma instituição financeira que deu origem ao Ueno.

Os parlamentares que defenderam o impeachment questionaram a proximidade entre o governo, os controladores do banco e os responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro.

As acusações também envolvem possíveis favorecimentos na movimentação de recursos públicos para a instituição.

A investigação busca esclarecer se houve interferência política na fiscalização bancária e se recursos de entidades públicas foram direcionados de maneira irregular.

Vice-presidente assume o governo

Com a destituição de Peña, o então vice-presidente Pedro Alliana foi empossado presidente do Paraguai.

Ele assumiu a responsabilidade de concluir o mandato, previsto para terminar em agosto de 2028.

Em seu primeiro pronunciamento, Alliana afirmou que uma das prioridades será encontrar soluções para os clientes prejudicados pelo colapso do banco.

O novo governo também terá de recuperar a confiança da população nas instituições financeiras e responder às cobranças por transparência e responsabilização dos envolvidos.

O próprio Alliana também aparece no contexto das investigações relacionadas ao banco, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional.

Crise ultrapassa o sistema financeiro

A queda de Santiago Peña mostra como uma crise bancária pode alcançar diretamente o centro do poder político.

O Ueno havia conquistado espaço expressivo no mercado paraguaio, com milhões de clientes e participação crescente na movimentação de recursos públicos e privados.

A intervenção no banco desencadeou uma reação em cadeia: contas bloqueadas, protestos, pressão sobre o governo e questionamentos sobre a atuação dos órgãos de fiscalização.

Agora, além de enfrentar o problema financeiro, o Paraguai precisa esclarecer as responsabilidades políticas e administrativas que levaram à crise.

O caso coloca em evidência a relação entre poder público, instituições financeiras e fiscalização do dinheiro dos cidadãos. O desfecho das investigações poderá atingir outras autoridades e empresários ligados ao banco.

Enquanto isso, Santiago Peña permanece em prisão domiciliar, e o Paraguai começa uma nova etapa política sob o comando de Pedro Alliana.

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